Aventura no Tibete, o teto do mundo – Voupranos

Aventura no Tibete, o teto do mundo

Adobe Stock: Mosteiro tibetano. Shangri-lá, China – Tvorecxtra

Shangri-lá, a terra fictícia descrita pelo britânico James Hilton no romance Horizonte Perdido, de 1933, além de resultado de um trabalho caprichoso da natureza, era um lugar repleto de atrações, onde se vivia em um estado de felicidade e bem-estar permanentes. A velhice demorava a atingir o corpo e a paz não era perturbada pelos males do mundo civilizado. Não é coincidência que essa sociedade utópica ficasse nas montanhas do Tibete, onde, embora a conjuntura política esteja longe de qualquer utopia, o cenário criado pela Cordilheira do Himalaia conserva até hoje uma atmosfera de paraíso intocado.

Mas conhecer essa região não é tarefa para iniciantes. Essa é uma viagem para quem já percorreu destinos mais conhecidos e agora procura uma aventura inusitada, traduzida em uma longa viagem até a Ásia Central, um embate constante com os efeitos da altitude sobre o corpo e sucessivas experimentações com a culinária local. A ousadia vale a pena: nesse território na ponta oeste da China, o visitante é apresentado a uma cultura rica, a uma história milenar e a cenários majestosos, seja graças à arquitetura dos palácios e templos, seja graças à beleza das paisagens naturais.

Adobe Stock: Caminhos do Himalaia – Luciene

Adobe Stock: Mosteiro budista no meio da montanha – Matiplanas

Afinal, no altiplano tibetano estão as nascentes de alguns dos rios mais importantes da Ásia, como o Azul (Yang-Tzé, o maior de todos), o Amarelo (Huang-Ho), o Indo (que desemboca no Paquistão) e o Ganges, que recortam o sem-fim de montanhas da região. Um cenário impressionante, preservado graças à cultura de respeito ao meio ambiente, que vem dos tempos da unificação das diversas tribos por Songtsen Gampo, o fundador do Tibete unificado.

A paisagem é coroada pela simpatia dos tibetanos, um povo de pele morena, curtida pelo sol, que, inesperadamente, recebe os brasileiros ainda com a lembrança de personagens de novelas, como a “Isôra” (como chamam a escrava Isaura, vivida por Lucélia Santos), e do futebol: é comum encontrar à venda chapéus e camisas com o nome de Neymar.

Adobe Stock: Um novato budista tailandês -Mongkolchon

Adobe Stock: retrato de mamie tibétaine – Jf Lefèvre

Como chegar

Apelidado de “teto do mundo”, o Tibete tem altitude média acima de 4 mil metros e as mais altas montanhas do planeta, crédito da localização na Cordilheira do Himalaia, conglomerado de mais de uma centena de picos, 30 deles a mais de 7.300 metros acima do nível do mar. Ali, desponta o objeto de desejo dos montanhistas mais experimentados: o Everest, com o cume a 8.848 metros acima do nível do mar, na fronteira com o Nepal.

Em razão da altitude elevada, a viagem exige cuidados e preparação prévia – com ingestão de remédios antes da chegada para evitar a hipóxia, estado de baixo teor de oxigênio no organismo. A última parada na China antes de ir para o Tibete é geralmente em Chengdou, a capital de Sichuan, a mais povoada das províncias do país, famosa por sua culinária picante e seu estilo festeiro. Com cerca de 8 milhões de habitantes, Chengdou tem uma história que remonta 2 mil anos e hoje é um dos mais importantes centros econômicos chineses.

Da cidade partem voos diários para Lhasa, a capital tibetana, ou para a simpática Nyingchi, 400 km a leste de Lhasa. Nos dois casos, o percurso de avião dura pouco mais de três horas.

Adobe Stock: Vista do rio Yangtze perto de Tiger – Aquatarkus

Iaque

O movimento que o verão traz à estrada não afasta os animais que a visitam: porcos e cabritos selvagens são vistos pelo caminho, pássaros em revoada e, sobretudo, o onipresente iaque, um bovino de pelagem longa e
espessa, adequada ao rigoroso inverno local. O animal é um dos símbolos tibetanos e elemento fundamental na
alimentação, quer pela carne (geralmente tratada como charque e consumida em tiras), quer pelo leite (que rende densos iogurtes, um queijo consumido em nacos duros e a quase onipresente manteiga, usada na mistura com chá e leite).

Essa manteiga ainda abastece lamparinas e estrutura velas, que são vistas, por exemplo, nos muitos templos da região, impregnando o ar com um aroma adocicado e o qual você nunca mais esquecerá. E ainda há o pelo do
animal, matéria-prima para vestuário ante o rigoroso frio tibetano.

Adobe Stock: Iaque – Alain

Adobe Stock: Iaque – Alina

Maior cânion do mundo

Nyingchi, que reúne cerca de 160 mil habitantes, vale a visita principalmente pelo ponto em que se encontra. Nesse trecho do Sudeste Asiático, o relevo se dobra em montanhas, alonga-se em vales e desaparece em cânions profundos. Rios abastecidos por água de degelo correm pelas encostas das montanhas, e florestas e pastagens crescem alimentadas por essa irrigação constante. Esse visual alpino rendeu à região o apelido de “Suíça tibetana”, e Nyingchi, de fato, não faz feio na comparação. Isso fica óbvio em um passeio pela Floresta Lulang, que alterna grandes extensões de mata fechada de ciprestes e pinheiros com trechos de gramado até as canelas, onde as azaleias crescem como num jardim a céu aberto.

Um mirante construído a 3.700 metros de altitude mostra esse panorama do alto e revela a teia de riachos e rios que passa lá. Maior rio de altitude do mundo, o Yarlung Tsangpo não deve ser contemplado só de longe. E a grande razão disso é conhecer seus cânions. Em alguns trechos largo e vagaroso a ponto de permitir travessias de balsa e barco, o Yarlung guarda o maior cânion do mundo, uma fenda de 6 mil metros de profundidade e quase 500 km de extensão, onde a água desaparece nas entranhas da terra.

Adobe Stock: Grand Canyon Yarlung Zangbo em Nyingchi – Jiazhong

Adobe Stock:Cena da natureza no Tibete – Wusuowei

Nyingchi

De Nyingchi, a viagem segue pela rodovia G318, e as belezas naturais desfilam à beira da estrada. Entre elas, o monte Nienchen Tangla, cuja grandiosidade é depreciada pelo apelido “Mila”. Um dos picos mais altos da rota, ele equilibra um mirante a uma altitude de 5.013 metros, que merece ser visitado – a passos lentos, já que nesse ponto a altitude pode castigar o corpo com fadiga e náusea. Essa é uma parada pontual.

Adobe Stock: Paisagem de Nyingchi (Linzhi) com flores de pêssego – Qi

Adobe Stock: Parque florestal e da montanha de neve Meili em Nyingchi, Tibete, China – Q

Gongbo’gyamda

A próxima parada é na aldeia de Gongbo’gyamda, um centro de visitação famoso. As razões para conhecê-lo são, principalmente, as construções de pedra do século 7º ao 10, ruínas de castelos da dinastia Tang que mais se
parecem com modestas torres de vigia. A peregrinação também leva gente para lá: é justamente na religiosidade e no misticismo que reside a cor local. Fiéis escrevem orações em bandeirolas coloridas, amarradas uma ao lado da outra em cordas para que o vento carregue as preces e pedidos para o céu.

No chão, montes circulares de pedras dividem espaço. Diz-se que quem deposita uma pedra no topo da pilha e dá uma volta ao redor dela, no sentido do relógio, tem mais chance de ter o pedido feito atendido.

Adobe Stock: Vista superior do panorama em Larung gar (Academia Budista) – Southtownboy Studio

Maizhokunggar

Se Gongbo’gyamda tem na peregrinação seu destaque, a vizinha Maizhokunggar apoia-se no valor histórico: na vila teria nascido Songtsen Gampo, o fundador do Tibete. Pouco se sabe so­bre os anos que ele viveu ali e até mesmo sua data de nascimento é nebulosa (pesquisadores apostam em uma data entre 570 e 605). Mas a importância do homem por trás da unificação do Tibete e da difusão do budismo nessas terras é suficiente para despertar curiosidade quanto ao lugar onde nasceu.

Quem resolve verificar o que há nessa cidadela de ruas áridas, localizada no fundo de um vale, depara com as belas corredeiras do Rio Niyang, um dos principais afluentes do Yarlung Tsangpo, cujas águas cavoucam o caminho entre blocos de pedra espalhados pelo leito. Aos que não se impressionam com a paisagem, a boa notícia é que Lhasa está próxima.

Adobe Stock: rio Yangtze na província de Yunnan – Martinhosmat083

Lhasa

A chegada à capital tibetana é impressionante. Depois de 400 km de estrada, Lhasa, cravada no sopé do Monte Gephel, a uma altitude de 3.490 metros, apresenta-se divina. Se a distância ela desperta sentidos, de perto mostra os costumes e cenários que o viajante espera encontrar durante toda a jornada.

Quem vai ao Tibete quer ver os templos budistas e os monges com suas túnicas cor de açafrão, e Lhasa, um centro de peregrinação por excelência, é a vitrine para isso. Na cidade de 400 mil habitantes, fiéis corriqueiramente se ajoelham sobre o chão em adoração e movimentam-se como se estivessem polindo o chão, num vaivém intermitente.
Verdadeiras fortalezas de paredes espessas como muralhas ou construções de aparência frágil, com telhados voltados para o céu, os templos também são numerosos.

Adobe Stock: Palacio Potala, Tibete – Tynrud

Adobe Stock: Mosteiro de Drepung, perto de Lhasa, Tibete – Tynrud

Palácio de Potala

A história por trás das edificações apenas torna o cenário mais interessante. Por volta do ano 650, depois de ter liderado a unificação dos principados tibetanos, o herói nacional Songtsen Gampo elegeu Lhasa a capital e
iniciou ali a construção das maiores atrações: o Templo Jokhang e o Palácio de Potala. Gampo era casado com duas princesas, a nepalesa Bhrikuti e a chinesa Weng Cheng. Por influência das duas, tornou-se budista e encomendou a
construção de diversos palácios e templos ao longo dos anos. Potala, o mais famoso, foi erguido em homenagem a Weng Cheng no século 7º.

Um milênio depois da construção, o palácio (que conta com 13 andares de passagens, escadarias, telhados sobre­postos, oratórios e pórticos) foi reformado. Os pavilhões de paredes brancas, localizados na base do complexo, foram concluídos em 1640, e o maciço mosteiro vermelho no alto da encosta, meio século mais tarde. Potala já foi a residência dos Dalai Lamas, mas, desde a ocupação chinesa na década de 1950, os líderes políticos e espirituais tibetanos vivem no exílio.

E o palácio hoje é um museu, com salas carregadas de aroma doce de incenso e lamparinas abastecidas com manteiga de iaque.

Adobe Stock: Palacio Potala – Sabin

Templo Jokhang

Outra joia local, o Templo Jokhang começou a ser construído no século 7º como marco do casamento de Gampo. Mas a obra passou por diversas reformas e ganhou novos pavilhões pelos anos que se seguiram até se tornar um complexo de 25 mil m². No entanto, ele ainda é decorado com esculturas e mobiliário do século 7º.

A exemplo do Palácio Potala, o Templo Jokhang é reconhecido pela Unesco como Patrimônio da Humanidade. Cada um desses cartões-postais fica em uma ponta da antiga Lhasa, e o centro histórico, com suas graciosas casas antigas, mesquitas e templos, ocupa o espaço entre as duas construções. Nas ruas Barkhor e Kora, as feiras permanentes pedem habilidade para barganhar: os preços pedidos nunca são aqueles que as vendedoras esperam receber. Por ali se veem rodas de oração, queimadores de incenso e as tradicionais bandeirolas ao vento, carregadas de pedidos e preces.

Adobe Stock: Templo Budista Jokhang em Lhasa, Tibete – Tynrud

Adobe Stock: rota de peregrinação em Shigatse, Tibete – Fabio Nodari

Publicado em: 20/02/2024
Atualizada em: 20/02/2024
Quero contribuir com essa matéria dos Voupranos

Voupra